O delírio
generalizado e o trabalho na Delegação
Paraná
Rumo
ao XVIII Encontro Brasileiro do Campo
Freudiano
Um caminho
de reflexões, questões e elaborações em torno do
delírio generalizado foi traçado ao longo de
dois dias de trabalho, em junho, no IX Colóquio
da Delegação Paraná, que nos endereçou ao XVIII
Encontro Brasileiro do Campo Freudiano com o
tema “O sintoma na clínica do delírio
generalizado” a ser realizado em novembro, em
São Paulo.
Desde sua primeira conferência
e com a lucidez e o rigor de sua transmissão, o
convidado Antônio Beneti, presidente da EBP, fez
pontuações muito precisas. Foram desenvolvidos
três momentos na obra de J. Lacan, considerando
o esforço que ele fez para situar “as soluções
psicóticas”. Aimeé, Schreber e Joyce são os
paradigmas destes três momentos, iniciando pela
passagem ao ato, passando pela construção do
sentido, da metáfora delirante, até chegar a uma
extração do sentido, a uma amarração entre
simbólico, real e imaginário.
Tal
amarração orienta a clínica não só do psicótico,
mas do que há de irredutível em cada sujeito.
Dessa maneira, chega-se à clínica do delírio
generalizado que, como Beneti apontou desde o
início, implica um ponto de irredutível em cada
um de nós, a loucura de cada um, e com a qual só
se pode fazer amarração pela via do sintoma.
Os
trabalhos das duas mesas do Colóquio
contribuíram para esclarecer, ilustrar e abrir
questões com relação a esse percurso, colocando
como contraponto o lugar do discurso do analista
e o do delírio do discurso do mestre
contemporâneo, que articula discurso da ciência
e discurso capitalista. Este assunto, mais
especificamente, foi desenvolvido na segunda
conferência do nosso convidado.
Em nome da
Coordenação, agradeço o trabalho de Antônio
Beneti com a Delegação Paraná, do primeiro
contato às duas magistrais conferências.
Agradeço,
também, a Oscar Reymundo pelas colocações ao
longo da jornada, lembrando que agora é
oficialmente Conselheiro da EBP e acompanha o
trabalho da Delegação Paraná.
Fecho este
espaço com o desejo de que neste segundo
semestre, rumo ao XVIII Encontro Brasileiro,
possamos continuar a avançar na Psicanálise de
Orientação Lacaniana através do trabalho
decidido com a causa analítica.
Nohemí
Ibáñez Brown
Correspondente
da Delegação Paraná - EBP
Psicanálise e Loucura na
Casa das Rosas
No dia 15
de agosto aconteceu na Casa das Rosas/Espaço
Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, à Av.
Paulista, um sarau lítero-musical, parceria do
Grupo Chama Poética com a Biblioteca da Escola
Brasileira de Psicanálise de São Paulo,
coordenado por Fernanda de Almeida Prado,
Marilsa Basso e Perpétua Medrado. Essa edição do
sarau “Chama Poética” foi baseado no livro Elogio da loucura de
Erasmo de Rotterdam (1465-69 — 1536).
O
evento foi bem-vindo por trazer a Escola
Brasileira de Psicanálise de São Paulo à cidade
e lançar o tema do XVIII Encontro Brasileiro do
Campo Freudiano “O Sintoma na Clínica do Delírio
Generalizado”. Precedeu o sarau a conversa
“Psicanálise e Loucura”, com as colegas da
EBP-SP, Cássia Maria Rumenos Guardado e Maria
Bernadette Pitteri.
Com a
alocução “Eu, a Loucura, falo”, Bernadette
iniciou sua fala, declamando trechos do livro de
Erasmo:
Vocês
ouvirão o elogio... de mim mesma, isto é, da
Loucura. Assim, pois, sigo aquele conhecido
provérbio que diz: Não tens quem te elogie?
Elogia-te a ti mesmo. Não posso deixar, neste
momento, de manifestar um grande desprezo, não
sei se pela ingratidão, ou pelo fingimento dos
mortais. É certo que nutrem por mim uma
veneração muito grande e apreciam bastante as
minhas boas ações; mas, parece incrível, desde
que o mundo é mundo, nunca houve um só homem
que, manifestando o reconhecimento, fizesse o
elogio da Loucura.
Bernadette
relatou que Erasmo escreveu o livro numa viagem
da Itália à Inglaterra, e o dedicou a Thomas
Morus. Na dedicatória, afirmava ver e falar com
More durante a viagem, e resolveu se divertir
fazendo um elogio à Loucura. Escreveu um apólogo
sobre os loucos que povoam o mundo colocando-os
ingênuos e hilariantes, à escuta da “Moria”, a
“Loucura”, mestra de todos. Usou no título o
jogo de palavras “Encomium Moriae”.
O Elogio da Loucura (Encomium
Moriae[1], uma das
obras-primas da literatura mundial (1508), tem a
marca da retórica: o autor abusa de repetições,
perguntas que não exigem resposta, provérbios,
além do recurso aos deuses gregos e romanos,
marca do Renascimento. Erasmo dizia contentar-se
em ter elogiado a Loucura sem estar inteiramente
louco, e afirmava não haver tocado em nenhum
ponto da “oculta cloaca de vícios da
humanidade, nem relevado suas torpezas e
infâmias, limitando-se a mostrar o que lhe
pareceu ridículo”. Erasmo viveu numa
época de crise, tal qual a que vivemos hoje.
Bernadette, respondendo à indagação de como
surgem as crises, asseverou que é porque todos
deliramos ou, como diz Lacan, “todo mundo é
louco, quer dizer, delirante”. Fez uma
articulação com a queda dos Nomes-do-Pai, dos
ideais, efeito, também, da foraclusão
generalizada, onde o que foi expulso pode
retornar no real como ódio e gozo. “Vivemos uma
época de queda de ideais, queda de valores,
queda dos Nomes-do-Pai, como na Renascença ou no
início do período cristão. Por que agora parece
mais grave? Talvez porque, nas crises
anteriores, rapidamente colocou-se outro
Nome-do-Pai no lugar do que havia caído: o Deus
Cristão, o homem livre diante de Deus.
Permaneceu, no entanto, o dado de estrutura, a
foraclusão generalizada. Os Nomes-do-Pai servem
para tamponar o dado de estrutura que, nessa
época pós-tudo, fica desvelada. Podemos
perguntar com Nietzsche ‘Quanto de
verdade suporta, quanto de verdade ousa um
espírito?’”.
Cássia
Guardado apresentou Lacan de forma clara e
poética, tomando como ponto de partida o texto
de Lacan Transferência para Saint
Denis? Diário de Ornicar? Lacan a favor de
Vincennes!, publicado em 1978, em
que apresenta argumentos sobre o ensino e a
transmissão da psicanálise. A expressão “todo
mundo é louco” aparece pela primeira vez nesse
pequeno texto, em que Lacan usa da escritura dos
matemas para escrever os quatro discursos e
sublinha que o discurso analítico é exceção, o
que sustenta a posição do analista. “O que
realmente me cabe acentuar é que, ao se oferecer
ao ensino, o discurso psicanalítico leva à
posição do psicanalisante, isto é, a não
produzir nada que se possa dominar, malgrado a
aparência, a não ser a título de sintoma”. E
ainda: “Como fazer para ensinar o que não se
ensina? Foi por aí que Freud caminhou. Todo
mundo, é louco, ou seja, delirante”.
O
sarau Chama Poética esquentou aquela tarde
gelada de domingo. O tema prenunciava o sucesso,
pois D. Loucura já dizia “Elogia-te a
ti mesmo”... Os textos foram lidos
pelos atores Alex Dias, Fernanda de Almeida
Prado, Francesca Cricelli, Neuza Pommer e contou
com a participação da nossa colega da EBP- SP,
Carmen Cervelatti. Na parte musical
apresentaram-se os músicos Gabriel de Almeida
Prado, Ozias Stafuzza, Kléber Albuquerque e teve
a participação das colegas Blanca Musachi,
Silvana e Regina Puglia, acompanhada pelos
músicos e compositores Emmanuel Nunes de Souza e
Fábio Madureira. Blanca Musachi roubou a cena
cantando “Balada para un loco” (arranjo de Astor
Piazzola), acompanhada por Silvana. Sugiro uma
espiada no chama poética
blogspot e, no
youtube, o vídeo da Blanca Musachi: http://www.youtube.com/watch?v=_pMAZbEC43A
Perpétua
Medrado
Aderente
da EBP (SP)
Notas
bibliográficas:
Trechos
do texto de Maria Bernadette
Pitteri*
LACAN, J.
- Transferência para Saint Denis? Diário de
Ornicar? Lacan a favor de Vincennes! Correio
Revista da Escola Brasileira de Psicanálise
n.65; 2010; São Paulo; p.31-32.
________.
– Alocução sobre o ensino. Outros Escritos.
Campo Freudiano do Brasil. Jorge Zahar Editor.
Rio de Janeiro: 2003; p.302-310.
LESERRE,
A. – Erasmo en los Escritos. COLOFON – Boletin
de la Federación Internacional de Bibliotecas
del Campo Freudiano n.14; 1996;
p.42-45.*
*Textos
disponíveis na Biblioteca da EBP-SP
[1] egkwmion
- elogio; discurso ou canto à glória dos deuses
ou de uma pessoa; panegírico; aplica-se aos
atos. Distinto de epainoz - elogio
aplicado à virtude ou ao mérito.
Mwria -
loucura, desejos
impudicos.
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