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BIBLIOTECA - PUBLICAÇÕES

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Boletim  Nº.  11  -   Agosto de 2010

titulo

“Não é só a morte que nivela; a loucura, o crime e a moléstia passam também a sua rasoura pelas distinções que inventamos.” (Lima Barreto, Triste fim de Policarpo Quaresma)

“Não se deixar arrastar pelo movimento delirante”: é de forma provocativa que Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros nos leva ao cerne da proposta deste Encontro Brasileiro, diferenciando sintoma de delírio generalizado. O sintoma faz a ficção (delirante) consentir com o inominável, com o real do qual tem que se distanciar. O parceiro analista escuta o que se atualiza do gozo na fala, como limite ao deslizamento à deriva da ficção; ele é parceiro das construções singulares que servem para dar um nome ao sujeito: uma forma de deter a metonímia delirante. Este título não deixa de evocar o que Lacan disse no Seminário 17 O avesso da psicanálise: “Não fique doido por uma verdade”.

Por outra via, o texto de Nohemí Ibáñez Brown pontua a amarração dos três registros como orientador da clínica do delírio generalizado que trata do que há de irredutível em todos nós, ao comentar as conferências de Antonio Beneti no IX Colóquio da Delegação Paraná. Fechando o círculo, Perpétua Medrado, em seu comentário sobre o sarau “Chama poética”, realizado em São Paulo, recupera a fala de Maria Bernadette Pitteri de que na foraclusão generalizada algo retorna no real. Se no primeiro texto vimos que o sintoma faz a ficção consentir com isso que é inominável, Cássia Maria Rumenos Guardado nos lembra, nesse mesmo sarau, que o discurso analítico leva à produção do sintoma.

Carmen Silvia Cervelatti
Membro da EBP/AMP (SP)>

Não se deixar arrastar pelo movimento delirante

O delírio generalizado parte da constatação de que o real, como o sol, não se pode olhar de frente. Há algo insuportável. Para lidar com ele, lança-se mão dos recursos de ficção que implicam modalidades diversas de uso da linguagem e de manejo dos objetos.

Mas, se a ficção é necessária, como não se deixar arrastar pelo movimento delirante que enreda o sujeito sem lhe deixar a brecha necessária para alojar o inominável, aquilo que não se pode traduzir em nenhuma linguagem ficcional?

É aí que se coloca a questão do sintoma na clínica do delírio generalizado, pois ele permite que o sujeito não fique à deriva de suas ficções para lidar com o real. O sintoma é uma modalidade de tratamento que faz a ficção consentir com aquilo do qual ela procurava se afastar. Apostar no sintoma é reconhecê-lo como instrumento para cingir o real em sua dimensão de impossível.

Quando o opaco do gozo pesa como um imperativo, ele invade o corpo, o pensamento, sem que o sujeito possa interpretá-lo, possa articulá-lo à falta. Torna-se assim difícil de suportar. Daí o esforço para traduzi-lo.

O trabalho que cada um realiza em silêncio, e de forma bem particular, para lidar com o gozo, precisa ser escutado, necessita de um parceiro que escute o que nele se atualiza como limite no deslizamento da ficção, sem que, muitas vezes, o próprio sujeito se dê conta. O que se realiza como limite tem um efeito apaziguador, tanto na neurose como na psicose, na medida em que fura a opacidade e permite que a ficção que busca traduzir o insuportável tenha uma função de nomeação, pois articula o furo ao significante. A nomeação é uma forma de deter o encadeamento delirante, pois ela não se produz sem o furo, seja ele inscrito na metáfora ou na metonímia.

Indico a leitura do texto de Éric Laurent “A interpretação ordinária”[1], que me inspirou no título que dou à minha contribuição para o Boletim do XVIII Encontro Brasileiro, onde ele nos convida a refletir sobre a forma de escutar o sujeito delirante sem “se deixar arrastar por uma palavra louca em nome do fato de que o delírio é uma via para a cura”[2].

A presença do analista convida a falar e faz aparecer uma pergunta: como traduzir para o outro algo que é tão singular e sem palavras? Convida a falar, mas não sem estar atento ao silêncio necessário, não sem estar à escuta do que se atualiza na fala como ponto de limite que detém e ancora e estabelece alguma distância entre ele e o Outro. O analista convida a falar para verificar em que língua o sujeito aborda o inominável que lhe é particular, pois não se trata de uma tradução na língua do Outro, mas de favorecer os achados e as construções singulares daquele sujeito que servem para lhe dar um nome.

Havendo ou não o recurso do Nome-do-Pai como referência para o trabalho da ficção, não se dispensa, no trabalho sob transferência, a produção daquilo que, para além do pai, para além do Édipo, pode situar o sujeito em relação ao real inominável com o qual ele tem que lidar. O Nome-do-Pai é um instrumento que serve como princípio de tradução, na medida em que tem uma função de nomeação, mas não é o único. Trata-se no trabalho com as psicoses de se tornar parceiro dos instrumentos não standarts que necessitam ser acolhidos por algum outro para lhe dar existência no Outro.

[1] Laurent, Éric. “La interpretación ordinária” in Mediodicho – Revista anual de Psicanálise da Escola de Orientação Lacaniana - Seção Córdoba, n. 35 – Año 13, Córdoba, agosto 2009.

[2] Idem.

Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros
Membro da EBP/AMP (RJ)

O delírio generalizado e o trabalho na Delegação Paraná
Rumo ao XVIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano

Um caminho de reflexões, questões e elaborações em torno do delírio generalizado foi traçado ao longo de dois dias de trabalho, em junho, no IX Colóquio da Delegação Paraná, que nos endereçou ao XVIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano com o tema “O sintoma na clínica do delírio generalizado” a ser realizado em novembro, em São Paulo.

Desde sua primeira conferência e com a lucidez e o rigor de sua transmissão, o convidado Antônio Beneti, presidente da EBP, fez pontuações muito precisas. Foram desenvolvidos três momentos na obra de J. Lacan, considerando o esforço que ele fez para situar “as soluções psicóticas”. Aimeé, Schreber e Joyce são os paradigmas destes três momentos, iniciando pela passagem ao ato, passando pela construção do sentido, da metáfora delirante, até chegar a uma extração do sentido, a uma amarração entre simbólico, real e imaginário.

Tal amarração orienta a clínica não só do psicótico, mas do que há de irredutível em cada sujeito. Dessa maneira, chega-se à clínica do delírio generalizado que, como Beneti apontou desde o início, implica um ponto de irredutível em cada um de nós, a loucura de cada um, e com a qual só se pode fazer amarração pela via do sintoma.

Os trabalhos das duas mesas do Colóquio contribuíram para esclarecer, ilustrar e abrir questões com relação a esse percurso, colocando como contraponto o lugar do discurso do analista e o do delírio do discurso do mestre contemporâneo, que articula discurso da ciência e discurso capitalista. Este assunto, mais especificamente, foi desenvolvido na segunda conferência do nosso convidado.

Em nome da Coordenação, agradeço o trabalho de Antônio Beneti com a Delegação Paraná, do primeiro contato às duas magistrais conferências.

Agradeço, também, a Oscar Reymundo pelas colocações ao longo da jornada, lembrando que agora é oficialmente Conselheiro da EBP e acompanha o trabalho da Delegação Paraná.

Fecho este espaço com o desejo de que neste segundo semestre, rumo ao XVIII Encontro Brasileiro, possamos continuar a avançar na Psicanálise de Orientação Lacaniana através do trabalho decidido com a causa analítica.

Nohemí Ibáñez Brown
Correspondente da Delegação Paraná - EBP

Psicanálise e Loucura na Casa das Rosas

No dia 15 de agosto aconteceu na Casa das Rosas/Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, à Av. Paulista, um sarau lítero-musical, parceria do Grupo Chama Poética com a Biblioteca da Escola Brasileira de Psicanálise de São Paulo, coordenado por Fernanda de Almeida Prado, Marilsa Basso e Perpétua Medrado. Essa edição do sarau “Chama Poética” foi baseado no livro Elogio da loucura de Erasmo de Rotterdam (1465-69 — 1536).
O evento foi bem-vindo por trazer a Escola Brasileira de Psicanálise de São Paulo à cidade e lançar o tema do XVIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano “O Sintoma na Clínica do Delírio Generalizado”. Precedeu o sarau a conversa “Psicanálise e Loucura”, com as colegas da EBP-SP, Cássia Maria Rumenos Guardado e Maria Bernadette Pitteri.

Com a alocução “Eu, a Loucura, falo”, Bernadette iniciou sua fala, declamando trechos do livro de Erasmo:

Vocês ouvirão o elogio... de mim mesma, isto é, da Loucura. Assim, pois, sigo aquele conhecido provérbio que diz: Não tens quem te elogie? Elogia-te a ti mesmo. Não posso deixar, neste momento, de manifestar um grande desprezo, não sei se pela ingratidão, ou pelo fingimento dos mortais. É certo que nutrem por mim uma veneração muito grande e apreciam bastante as minhas boas ações; mas, parece incrível, desde que o mundo é mundo, nunca houve um só homem que, manifestando o reconhecimento, fizesse o elogio da Loucura.

Bernadette relatou que Erasmo escreveu o livro numa viagem da Itália à Inglaterra, e o dedicou a Thomas Morus. Na dedicatória, afirmava ver e falar com More durante a viagem, e resolveu se divertir fazendo um elogio à Loucura. Escreveu um apólogo sobre os loucos que povoam o mundo colocando-os ingênuos e hilariantes, à escuta da “Moria”, a “Loucura”, mestra de todos. Usou no título o jogo de palavras “Encomium Moriae”.

O Elogio da Loucura (Encomium Moriae[1], uma das obras-primas da literatura mundial (1508), tem a marca da retórica: o autor abusa de repetições, perguntas que não exigem resposta, provérbios, além do recurso aos deuses gregos e romanos, marca do Renascimento. Erasmo dizia contentar-se em ter elogiado a Loucura sem estar inteiramente louco, e afirmava não haver tocado em nenhum ponto da “oculta cloaca de vícios da humanidade, nem relevado suas torpezas e infâmias, limitando-se a mostrar o que lhe pareceu ridículo”. Erasmo viveu numa época de crise, tal qual a que vivemos hoje. Bernadette, respondendo à indagação de como surgem as crises, asseverou que é porque todos deliramos ou, como diz Lacan, “todo mundo é louco, quer dizer, delirante”. Fez uma articulação com a queda dos Nomes-do-Pai, dos ideais, efeito, também, da foraclusão generalizada, onde o que foi expulso pode retornar no real como ódio e gozo. “Vivemos uma época de queda de ideais, queda de valores, queda dos Nomes-do-Pai, como na Renascença ou no início do período cristão. Por que agora parece mais grave? Talvez porque, nas crises anteriores, rapidamente colocou-se outro Nome-do-Pai no lugar do que havia caído: o Deus Cristão, o homem livre diante de Deus. Permaneceu, no entanto, o dado de estrutura, a foraclusão generalizada. Os Nomes-do-Pai servem para tamponar o dado de estrutura que, nessa época pós-tudo, fica desvelada. Podemos perguntar com Nietzsche ‘Quanto de verdade suporta, quanto de verdade ousa um espírito?’”.

Cássia Guardado apresentou Lacan de forma clara e poética, tomando como ponto de partida o texto de Lacan Transferência para Saint Denis? Diário de Ornicar? Lacan a favor de Vincennes!, publicado em 1978, em que apresenta argumentos sobre o ensino e a transmissão da psicanálise. A expressão “todo mundo é louco” aparece pela primeira vez nesse pequeno texto, em que Lacan usa da escritura dos matemas para escrever os quatro discursos e sublinha que o discurso analítico é exceção, o que sustenta a posição do analista. “O que realmente me cabe acentuar é que, ao se oferecer ao ensino, o discurso psicanalítico leva à posição do psicanalisante, isto é, a não produzir nada que se possa dominar, malgrado a aparência, a não ser a título de sintoma”. E ainda: “Como fazer para ensinar o que não se ensina? Foi por aí que Freud caminhou. Todo mundo, é louco, ou seja, delirante”.

O sarau Chama Poética esquentou aquela tarde gelada de domingo. O tema prenunciava o sucesso, pois D. Loucura já dizia “Elogia-te a ti mesmo”... Os textos foram lidos pelos atores Alex Dias, Fernanda de Almeida Prado, Francesca Cricelli, Neuza Pommer e contou com a participação da nossa colega da EBP- SP, Carmen Cervelatti. Na parte musical apresentaram-se os músicos Gabriel de Almeida Prado, Ozias Stafuzza, Kléber Albuquerque e teve a participação das colegas Blanca Musachi, Silvana e Regina Puglia, acompanhada pelos músicos e compositores Emmanuel Nunes de Souza e Fábio Madureira. Blanca Musachi roubou a cena cantando “Balada para un loco” (arranjo de Astor Piazzola), acompanhada por Silvana. Sugiro uma espiada no chama poética blogspot e, no youtube, o vídeo da Blanca Musachi: http://www.youtube.com/watch?v=_pMAZbEC43A

Perpétua Medrado
Aderente da EBP (SP)

Notas bibliográficas:
Trechos do texto de Maria Bernadette Pitteri*
LACAN, J. - Transferência para Saint Denis? Diário de Ornicar? Lacan a favor de Vincennes! Correio Revista da Escola Brasileira de Psicanálise n.65; 2010; São Paulo; p.31-32.
________. – Alocução sobre o ensino. Outros Escritos. Campo Freudiano do Brasil. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro: 2003; p.302-310.
LESERRE, A. – Erasmo en los Escritos. COLOFON – Boletin de la Federación Internacional de Bibliotecas del Campo Freudiano n.14; 1996; p.42-45.*
*Textos disponíveis na Biblioteca da EBP-SP



[1] egkwmion - elogio; discurso ou canto à glória dos deuses ou de uma pessoa; panegírico; aplica-se aos atos. Distinto de epainoz  -  elogio aplicado à virtude ou ao mérito.

Mwria - loucura, desejos impudicos.

informaçao

 

HOSPEDAGENS E PASSAGENS

Caros colegas,

Está se aproximando o XVIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, o entusiasmo vai tomando conta nas Seções com as atividades preparatórias. Aproveito para lembrar a importância de programar sua viagem através da Starwood Travel, agência de viagem oficial do XVIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano.
 Há pelo menos excelentes motivos para comprar suas passagens com a Starwood Travel, vinculadas aos seguintes benefícios:

A Gol concederá brindes aos participantes e um desconto de 15% nas tarifas;

Haverá um consultor de viagens da Starwood Travel dedicado ao atendimento exclusivo dos participantes, facilitando dessa forma quaisquer eventuais problemas ou alterações de passagens;

O XVIII Encontro Brasileiro terá direito a um trecho de cortesia para cada 20 trechos vendidos, o que viabilizará a aquisição de passagens para os convidados nacionais e internacionais.  Contamos com a colaboração de todos! 

Quanto à hospedagem, a Comissão de Acolhimento juntamente com a Starwood, selecionou alguns hotéis próximos ao Encontro, aliando-se conforto, economia e comodidade.

Há ainda hospedagens alternativas como albergues, bed and breakfast. Basta entrar em contato com a STARWOOD TRAVEL através do e-mail
psicanalise@starwood.com.br

Telefone (11) 5035-5272 | Fax: (11) 5031-2233
Telefone emergencial: (11) 3017-6720

Um abraço
Perpétua Medrado

Coordenadora da Comissão de Acolhimento
pmedrado@hotmail.com

 

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As pesquisas bibliográficas estarão disponíveis, para consulta, no site  www.ebp.org.br/encontro2010.

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